O desenho enquanto reinvenção
Por Patrícia Mamede
Luiza de Souza, mais conhecida como Ilustra Lu, desenha como quem respira. Ilustradora, roteirista e quadrinista, a artista encontrou nos traços um modo de existir no mundo e reinventá-lo. Através de suas fabulações e costura de imagens, ilustra a fim de transformar suas experiências de vida em narrativa.
Carrega o título de quadrinista com orgulho. Mas esse ofício não se deu através de uma escolha planejada, aconteceu por acaso, “comecei a desenhar porque eu tinha sofrido um acidente, completamente aleatório”, conta, ainda com humor, “fui atropelada na universidade”.
Devido ao incidente, a vida atropelou sua rotina e seus planos e ela ficou imobilizada e impossibilitada de seguir a mesma vida agitada entre estudos e trabalhos. Com um cotidiano mais estático e solitário, surgiu a necessidade de criar algo novo, “comecei a desenhar”.
Mas o interesse pela narrativa veio muito antes. Desde jovem, Luiza já experimentava a escrita, mas sentia falta de uma certa leveza no processo. As palavras, por vezes rígidas, não davam conta do seu desejo por humor, ritmo e expressividade. Foi nos quadrinhos que encontrou esse equilíbrio, quando passou a incorporar momentos divertidos, imagens e onomatopeias às suas histórias.
Assim, passou a produzir e vender seus próprios fanzines — publicações independentes, artesanais e de tiragem limitada. Ao lado de amigos, organizava festas para comercializar os ‘zines’ e investia o valor arrecadado em novas produções, criando um ciclo criativo e colaborativo.
Os trabalhos de Luiza nascem de um desejo genuíno de diálogo com o mundo. Em um cenário brasileiro marcado pela intensificação de discursos de ódio, a artista se vê frequentemente atravessada pela pergunta sobre seu papel nesse contexto e como pode contribuir para transformá-lo, ajudando a “botar coisas bonitas no mundo”, como expressa em uma de suas artes.
Foi com esse propósito que, em 2018, criou uma série de tirinhas sobre o impacto de falas violentas de adultos na vida de crianças. A repercussão foi imediata, “tive um retorno muito grande de identificação com a publicação dessas histórias”.
Criou uma série que foi publicada no antigo Twitter (atual X), uma rede muitas vezes associada à disseminação de ataques. Ainda assim, o trabalho de Luiza seguiu na contramão dessa lógica, “as pessoas dizem para nunca ler os comentários, mas esse quadrinho fugia à regra; os comentários eram o lugar mais acolhedor da face da Terra”.
Isso porque a narrativa, que explora o amadurecimento de um menino esbarrando nas descobertas da sexualidade e no preconceito familiar, serviu de refúgio e acolhimento para muitas pessoas. Leitores passaram a compartilhar suas próprias vivências, formando uma rede emocional de desabafo. “Nunca vou superar a emoção do que é botar um negócio desse no mundo”, afirma.

O impacto foi tão grande que, em 2021, a webcomic ganhou versão impressa pela editora Seguinte, sob o título Arlindo. O projeto nasceu de uma campanha histórica no Catarse, que atingiu 100% da meta em menos de 24 horas.
Além de Arlindo, Luiza realizou projetos literários, jogos de tabuleiro e vídeos onde, através de uma linguagem simples e descomplicada, aborda temas complexos como violência e homofobia, traduzindo essas experiências de forma sensível e compreensível para o público infantil.
Para a artista, os quadrinhos funcionam como uma porta de entrada para o universo da leitura, facilitando o contato das crianças com temas difíceis e estimulando o hábito literário.
Essa visão se sustenta na própria história dos quadrinhos. No fim do século XIX, com a prensa a vapor, os quadrinhos alcançaram as massas e tornaram-se ferramentas vitais contra o analfabetismo. “O quadrinho é a melhor porta de entrada para qualquer coisa”, defende Luiza.
Em um país com altas taxas de analfabetismo, ela enxerga a nona arte como ferramenta de inserção social, “ele [o quadrinho] tem o poder de agarrar a pessoa porque é imersivo. Se a pessoa engata a leitura em um quadrinho, ela consegue voltar para o movimento da leitura [literária]”.
Criatividade versus Inteligência Artificial
Com um portfólio que inclui marcas como Ruffles, Banco do Brasil e HBO, Luiza acompanha de perto as transformações do mercado criativo. Diante do avanço da inteligência artificial e da redução de algumas oportunidades de trabalho, ela admite sentir um “leve desespero”, mas acredita que o diferencial, agora, está no processo e não apenas no resultado final. “Não tem nada mais bonito do que uma arte feita por gente”, afirma, destacando que não utiliza IA nem como ferramenta.
“Eu gosto da artesania de pensar, de dar trabalho”
Para ela, a força da criação humana está na capacidade de transformação, enquanto a inteligência artificial opera a partir de repertórios já existentes. Nenhuma máquina, segundo Luiza, é capaz de reproduzir o conjunto único de referências individuais que torna cada obra singular.
“A inteligência artificial só consegue ver o que está para trás, o que alguém já fez, o que já está posto”
Nesse cenário, sua principal bússola criativa é a brincadeira. “Eu fui uma criança muito séria e obediente, o que me roubou o espaço de brincar”, conta, “só aos trinta anos comecei a aprender a me levar menos a sério”.
Hoje, é na arte que ela recupera essa liberdade, criando de forma mais espontânea, leve e autêntica. “Quando eu fiz trinta anos, pensei, ‘pronto, completei a idade que tenho desde os seis’. E a partir daí que eu comecei a aprender a brincar, me levar menos a sério”.
A artista observa que, durante sua vida, foi criada para ser uma menina muito obediente e essa obediência lhe roubou o espaço da brincadeira. “Quem é educada para ser menina, é educada para se podar, para ficar quieta, para não brincar feito um moleque no meio da rua”.
Criar é, para Luiza, uma forma de reescrever o que lhe foi ensinado desde cedo. Como um gesto de desobediência, a artista reinventa seu lugar no mundo e projeta isso para quem a lê.
Em breve lançará o quadrinho Faísca, pela Companhia das Letrinhas, cuja história reflete a vida de Didi, uma menina questionadora que, em uma noite de São João, monta um plano infalível com sua amiga Ninha para poder “brincar como os meninos brincam”. O lançamento oficial será na Poccon em São Paulo, nos dias 5 e 6 de Junho deste ano, no Centro de Convenções do Distrito Anhembi.
Se quiser conhecer seu trabalho, clique aqui. E, para apoiar seu projeto no Catarse, acesse o link: https://www.catarse.me/ilustralu
