Artista fala sobre tecnologia, a relação das novas gerações com a arte e aconselha jovens a desenvolverem um olhar mais sensível.
Dionisio.AG em A Voz do Artista
por Patrícia Mamede
Em um café silencioso em Pinheiros, abro o computador e entro na reunião. Minutos depois, surge do outro lado da tela um homem que aparenta estar na casa de seus cinquenta anos, de cabelos platinados vestindo um corta-vento rastafari. Uma combinação divertida.
Após leves problemas técnicos e algumas risadas que criam um clima tranquilo, finalmente conseguimos nos estabelecer. Me apresento e, em seguida, ele dá sequência.
Luís Flávio, mais conhecido como Tio Trampo, tem 54 anos e é pioneiro em Street Art no Sul do Brasil. Seu interesse pelas manifestações artísticas começou quando tinha só 14 anos, em 1985, exatamente quando a Street Art consolidou o graffiti como expressão artística institucionalizada no Brasil.
Mas o seu fascínio nasceu muito antes de conhecer a História das pinturas nos muros. Nasceu em casa, através da observação de sua mãe enquanto fazia seu trabalho artesanal. Artesã esta que, além de ter sido sua porta de entrada neste universo, também lhe garantiu uma filosofia imprescindível que o acompanharia em toda a sua trajetória. Observando as mãos dela transformarem materiais simples em objetos carregados de cuidado, Luís entendeu cedo que criar também era uma forma de viver.
“Matéria prima sempre teve na minha casa.”
Outra influência decisiva veio do skateboard. Mais do que um esporte, ele enxerga a cultura do skate como uma espécie de formação ética. O companheirismo, a troca e a solidariedade presentes nas pistas foram valores que ele carregou naturalmente para o graffiti e para a arte urbana, movimentos onde o coletivo sempre teve mais força do que a individualidade.
Sua trajetória artística se iniciou assim, coletivamente.

De Porto Alegre para outras cidades do país, Trampo trocava correspondências com artistas de outras regiões, como por exemplo Os Gêmeos. “Com o tempo isso foi se tornando uma amizade e através dessas [correspondências] a coisa se foi”, e Tio Trampo entrou “na cena”. “Hoje tenho uma relação muito especial com eles”.
Ao abrir as redes sociais do artista, percebe-se que as relações humanas seguem ocupando um lugar central em sua vida. Entre fotos com amigos, alunos, parceiros e colegas de profissão, fica evidente que seu combustível criativo nasce do coletivo. Há algo de profundamente generoso em sua maneira de enxergar a arte, menos preocupada com resultado e mais interessada nos encontros que acontecem durante o processo.
Por volta de 1990, a convite da prefeitura de sua cidade que, na época, estava querendo se aproximar da periferia, Luís iniciou trabalhos como arte-educador no programa de Descentralização de Porto Alegre.
Em 2000, participou do intercâmbio Mural Global em Duisburg, na Alemanha, uma experiência internacional que lhe serviu como chancela profissional importante que, amplificada pela cobertura da mídia na época, lhe abriu portas e consolidou o seu reconhecimento enquanto artista não só no Rio Grande do Sul, mas para além das fronteiras brasileiras.
Sem formação acadêmica, Tio Trampo conquistou espaço no circuito da arte contemporânea ao expor em instituições como a Choque Cultural, a USP e o Paço das Artes.

Pintura na rua felipe schmidt “Viva cidade viva” projeto do festival
Ao longo da nossa conversa, me parece fazer sentido perguntar sobre algumas pinceladas filosóficas presentes nos textos de suas redes sociais, e como a filosofia conversa com seu trabalho. Mas Luís rapidamente truca a pergunta com uma resposta típica de artistas, “eu não sei falar muito bem do meu trabalho”. Damos risada. “O graffiti tem esse tempo útil. Pode acontecer qualquer coisa. O muro pode cair, pode vir outro grafiteiro e pintar em cima, ou até o cartaz de uma festa, várias coisas podem acontecer”.
Assim como a arte nos shapes de skate, que poderá ser – e será– deteriorada pelo desgaste do excesso de manobras e apagará tão brevemente os desenhos uma vez presentes nas pranchas, Luís faz o paralelo dessa efemeridade presente no ato de pintar as ruas.
O artista compreendeu desde muito cedo que o trabalho artístico deve ser humilde e desapegado. Ainda assim, não abandona a importância de realizar suas produções com êxito.
A vida de um trabalho urbano pode durar um dia ou dez anos, não importa, a execução deve ser feita com a mesma dedicação. Para Luís, o caminho é a verdadeira conquista de um artista.
A era da tecnologia e a desvalorização dos processos
Tio Trampo acredita que vivemos um momento paradoxal. Ao mesmo tempo em que a tecnologia facilitou o acesso à informação, também modificou profundamente nossa relação com a experiência. “Hoje tá tudo na mão. Na época que eu iniciei, o graffiti te pegava de surpresa na rua. Eu andava de ônibus e, quando via uma pintura, a gente entusiasta desse movimento, descia do ônibus para ver de perto. Era uma outra magia. Hoje é tudo muito instantâneo, então esse aspecto surpresa se perdeu um pouco”, lamenta.
Por meio da sua experiência como arte-educador, comenta sobre algumas adversidades que percebe na sua interação com os alunos, que aparecerem, muitas vezes, com um excesso de informações rápidas e não aprofundadas, o que implica em uma dificuldade dos jovens na hora de absorver um conhecimento maior.
Lembro de uma pesquisa, feita pelo psicólogo e educador norte-americano, Dr. Larry D. Rosen, em que ele diz que uma das desordens ligadas à utilização intensa das tecnologias digitais é o chamado “Efeito Google”, que seria essa tendência de, cada vez mais, as pessoas reterem menos conhecimento porque sabem que as respostas estarão a um clique de distância.
Aos poucos, delegamos à tecnologia não apenas a nossa memória, mas também parte da nossa capacidade de contemplação, algo extremamente necessário para a criação.
As consequências dessa “facilitação” são graves. A relação que as pessoas estão desenvolvendo com a tecnologia estimula processos cognitivos rápidos e superficiais e compromete a capacidade de elaborações e reflexões mais lentas e profundas. Esse padrão prejudicará a capacidade das crianças, futuramente, de fazer conexões complexas e de resolver problemas de maneira analítica.
“Quando eu vi Black Mirror pela primeira vez, eu olhei para a minha esposa e disse, ‘fazia anos que eu não ficava com medo de assistir a um negócio na TV. Black Mirror é uma série de terror muito real.”

Projeto na Pista de Skate da cidade de Tramandaí RS 2022
Nos debates sobre tecnologia e educação, cresce a preocupação com os impactos desse imediatismo na capacidade de elaboração crítica e sensível das novas gerações.
Em um outro artigo, sobre A experiência estética em tempos de virtualização tecnológica, as autoras, Elaine Conte e Catia Piccolo Viero Devechi, escrevem que “A educação torna-se cada vez mais instância legisladora da ação, resultando em atitudes frias, mecânicas e fragmentadas, reveladas nos limites da razão instrumental….]”.
Luís percebe isso na prática. Muitos jovens chegam em busca de reconhecimento rápido, interessados menos no aprendizado e mais na ideia instantânea de sucesso, “isso é um mal dessa nova geração”.
Com esses jovens, o papel dele enquanto educador é incentivar a desconstrução desse imediatismo, sensibilizando os alunos para a importância da prática constante e enfatizando sobre a humildade e respeito necessários que se deve ter diante do processo criativo.
“A ação do educador é a de sensibilizar.”
Tio Trampo aconselha as novas gerações a exercitarem o olhar, a paciência e a valorização do processo. Um resultado não é nada além do bom ou mau aproveitamento de um processo. O resultado é o processo.
O artista entende que é preciso educar as novas gerações sobre o tempo e ensiná-las a reconhecer sua pequenez diante dessa força invisível.
O escritor francês Emmanuel Carrère, em seu livro Ioga diz, “É a viagem que conta, não o destino – ou, como dizia Chögyam Trungpa: ‘O caminho é o objetivo”.
A sensibilidade acontece por meio de um olhar que se estica, se alonga e se demora nas coisas, a fim de que seja possível enxergar além. A sensibilidade exige tempo, “é muito importante, formas analógicas de fazer as coisas”.
Marcas & Impacto Social
Ao perguntar o que empresas e marcas poderiam fazer para apoiar jovens interessados em seguir caminhos artísticos, Tio Trampo responde sem hesitação, “a liberdade para criar”.
Ele cita o exemplo de uma ação na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, onde uma marca forneceu recursos sem exigir um briefing restritivo, permitindo a participação popular e confiando no processo e no resultado das pessoas. Para ele, essa confiança é determinante, “é importante dar uma direção, né? Mas é só uma direçãozinha, não precisa brifar tudo”.
Trampo avalia que, apesar da carência de recursos e informação no Brasil, a criatividade do improviso tornou-se um diferencial e uma característica marcante da arte urbana brasileira. Para ele, o improviso é, por si só, uma capacidade rica e valiosa da cultura popular. Uma riqueza que precisa ser cuidada e valorizada.
Para conhecer mais o trabalho de Tio Trampo, clique aqui.
Conforme publicado pela Academia Brasileira de Marketing, Tio Trampo — Luís Flávio, pioneiro do Street Art no Sul do Brasil e arte-educador desde 1990 — falou à Dionisio.AG sobre tecnologia, imediatismo digital e a necessidade de sensibilizar as novas gerações para o processo criativo, defendendo que a liberdade para criar é a maior contribuição que marcas podem oferecer a jovens artistas.
