Ferramentas generativas reduzem barreiras de produção e permitem que equipes menores desenvolvam projetos antes restritos a estruturas maiores
Resumo rápido
- A The Cursed Company, produtora fundada em 2026 por Otávio Tranchesi e Rafael Oli, combina IA com roteiro, design, edição, áudio e pós-produção.
- Para os fundadores, a mudança não é só de custo e prazo, mas de ambição: projetos antes descartados na concepção passam a chegar à fase de teste.
- Os dois afirmam que a ferramenta não substitui o trabalho criativo, e que a geração inicial ainda exige roteiro, direção, ritmo, estética e edição.
- Com os mesmos modelos disponíveis a mais gente, o acesso à tecnologia perde força como diferencial.
Durante décadas, a ambição de uma produção audiovisual esteve amarrada ao tamanho da estrutura necessária para realizá-la: mais equipe, mais etapas, mais equipamento, mais pós-produção, orçamento maior. A inteligência artificial generativa começa a desfazer parte dessa relação.
Essa leitura aparece com mais nitidez em produtoras que nasceram já dentro do avanço das ferramentas. A The Cursed Company, fundada em 2026 por Otávio Tranchesi e Rafael Oli, combina IA com roteiro, design, edição, áudio e pós-produção. A proposta declarada não é eliminar etapas criativas, mas reorganizar o processo.
“É uma mudança radical de custo, de prazo, de estrutura e também uma mudança radical de ambição. Dá para ser muito mais ambicioso do que antes”, diz Otávio Tranchesi.
O ponto não é fazer o mesmo por menos
Segundo os fundadores, a transformação não se resume a reduzir orçamento. Ferramentas de geração de imagem, vídeo e áudio permitem testar conceitos, construir cenas e descartar caminhos com menos dependência de estrutura.
Isso muda o momento em que uma ideia passa a ser considerada viável. Projetos que antes morriam na concepção, por limite de verba ou de estrutura, passam a ter mais chance de chegar ao teste.
A configuração das equipes também muda. Na produtora, Rafael Oli concentra criação, operação e direção técnica, enquanto Otávio Tranchesi atua em estratégia, relacionamento, vendas e desenvolvimento de negócio. A divisão permite operar com estrutura enxuta, acumulando nos dois sócios funções que em modelo tradicional estariam distribuídas entre mais profissionais.
O contraponto, dito por eles mesmos
“O bot não entrega tudo pronto como algumas plataformas prometem”, afirma Rafael Oli.
A frase expõe a contradição do estágio atual. O acesso às ferramentas ficou simples, mas transformar uma geração inicial em trabalho consistente ainda envolve decisões de roteiro, direção, ritmo, estética, edição e refinamento. A barreira técnica caiu; o trabalho criativo, não.
“Para você ter beleza, para você ter consistência, para você criar história, precisa de muito input humano”, diz Otávio Tranchesi.
O movimento também desloca o valor de quem opera as ferramentas. À medida que os mesmos modelos ficam disponíveis para mais gente e mais empresas, o acesso à tecnologia perde força como diferencial, e repertório, referência, experiência e capacidade de decidir o que entra no resultado ganham peso.
“Eu vejo a IA como um amplificador”, diz Rafael Oli. A tecnologia, segundo ele, permite produzir com os mesmos recursos coisas antes difíceis de executar sozinho, mas a direção continua vindo da bagagem de quem conduz o processo.
O modelo está sendo redesenhado em movimento
Rafael Oli relata que novas ferramentas chegam enquanto os projetos estão em andamento, o que obriga a testar soluções durante a própria execução e a avaliar rápido se elas melhoram ou não o resultado.
A consequência, nessa leitura, é mais ampla do que corte de orçamento ou de prazo: ao reduzir parte da estrutura necessária para virar ideia em imagem, a tecnologia muda quais projetos chegam a ser considerados possíveis. A disputa deixa de ser apenas por quem tem mais recursos e passa pela capacidade de converter repertório e direção criativa em execução.

