Artista fala sobre a construção do próprio nome, as metamorfoses de seus processos criativos e os desafios de permanecer na arte sendo mulher
Por Patrícia Mamede
Carolyna é pintora e multiartista nascida em São Paulo, mas talvez muitos não a reconheçam pelo nome que consta em sua certidão de nascimento e, sim, pelo apelido: Mag Magrela. Apesar de, hoje, este nome carregar o título de toda a sua carreira, “Magrela” nem sempre foi motivo de estima para Carolyna. O nome surgiu a partir de terceiros, quando ainda pequena, através de um bullying que sofreu em sua época de escola. Os anos se passaram e Mag decidiu vestir e ressignificar a palavra. Pegou uma de suas primeiras dores e a transformou em arte. E faz isso desde então.
Desde sempre, Mag esteve em contato com os mais diversos tipos de arte, como a dança, a música e o canto. Mas, passada a adolescência, as brincadeiras de criança foram ficando para trás, assim como suas expressões artísticas. A entrada no mundo adulto estava à espreita e Mag decidiu seguir o caminho das ditas “pessoas grandes”, então fez um curso de administração de empresas. No entanto, a criança continuava lá, também à espreita, também pedindo licença para existir e se perguntando o que amava, o que a nutria e o que desejava de fazer.
Em 2007, por sorte, Mag escutou o desejo que lhe sussurrava baixinho e decidiu participar de uma oficina de graffiti, no Senac. Neste período, ela ainda trabalhava em algumas lojas mas, aos finais de semana, a artista colocava suas tintas e sprays embaixo dos braços e ia às ruas pintar, “e aí eu falei, cara, é isso o que eu quero”.
Como a maioria dos artistas, o trabalho de Mag é uma extensão de sua própria vida, “as coisas que eu vivo, observo, passo, sinto, rejeito, me indigno, gostaria de mudar no mundo, gostaria de mudar em mim mesma. É muito um processo de análise comigo e com o mundo”, conta. Assim, sua arte caminha como tudo o que é vivo e, por isso, sofre metamorfoses ao longo dos anos.
No começo, Mag conta que rejeitava tudo o que poderia ser entendido enquanto “algo de menina”, e então pintava o oposto: figuras masculinas. Hoje, a artista entende que esse início foi algo bastante denso e nasceu através de dores, traumas, castrações, angústias patriarcais, sociais e de diversas questões relacionadas à sua vida sexual com homens. Ao longo dos anos, tomou coragem para conhecer a cultura e encarar as armadilhas que julgam como mulheres devem ser ou como devem se portar.
Assim, a rejeição por símbolos entendidos como femininos parecia também lhe sussurrar espécies de segredos, “fui me conectado mais comigo mesma, com as minhas sensações, as minhas tristezas. […] Ao longo do meu processo, pude adentrar em outros temas”. Atualmente, a pesquisa de Mag reflete questões relacionadas à alimentação, ao corpo, às opressões da terra, à especulação imobiliária entre outras coisas.
A maioria de seus trabalhos atuais são representações de mulheres, algo que a artista entende enquanto uma conquista. Hoje, se sente confortável em ilustrar figuras femininas, e conta que não é ela quem domina suas criações, mas o inverso, “[as figuras] que me dominam”. Se antes as figuras presentes em seus trabalhos eram mais rígidas e chapadas, hoje, a artista gosta de explorar o movimento, “comecei a me olhar, a me ver no espelho”.
Dos primeiros retornos que Mag teve sobre seu trabalho, muitas devolutivas de homens eram negativas e costumavam questionar se suas obras deveriam, ou não, ser qualificadas enquanto graffiti, “eu até respondia que tudo bem se não for graffiti, eu faço o que eu tenho que fazer, não importa. Não quero me enquadrar em nenhum lugar. Se eu estou fazendo algo que não é o graffiti, melhor ainda; eu sou mais livre ainda”.
Por outro lado, os comentários que a artista recebia de mulheres pareciam ser mais compreensíveis e receptivos sobre suas artes. Muitas, inclusive, sentiram que podiam se inspirar na trajetória da artista e tomaram emprestado doses de sua coragem e se arriscaram em suas próprias ondas criativas.
Mag fala sobre as ditas “regras” presentes na cultura do Hip Hop, como a utilização do spray enquanto principal característica do graffiti, “a gente está num país onde o spray, até hoje inclusive, é muito caro. É muito mais barato comprar uma lata de tinta, um pincel e sair pintando”. Nesse caso, a tinta se fez enquanto possibilidade para Mag, “eu não tinha grana para gastar com o [spray]”.
A artista sempre foi autônoma e correu atrás das oportunidades. Conta que trabalhar com marcas é algo que lhe agrada bastante, “adoro trabalhar com essa história de ‘a gente tem essa temática, vamos aprofundar”. No entanto, aproveita a possibilidade de escolha que tem para selecionar os trabalhos com os quais deseja contribuir, e tende a aceitar propostas que dialoguem com o seu universo de pesquisa.
Mag compartilha dois artistas que inspiram suas criações, a primeira, Tarsila do Amaral, e o segundo, seu pai, que também é pintor. Quando criança, em sua casa, havia um cavalete posto em sua sala de estar, o que lhe permitiu desenvolver gosto pela atividade desde cedo. Fora seu pai e Tarsila, Mag menciona outras artistas como, Frida Kahlo, Hera e o grupo As Noturnas como grandes influências e inspirações.
Segundo a artista, o maior desafio para as mulheres no mundo da arte não está no início, mas na dificuldade de se manter ativa frente às poucas oportunidades que lhes são ofertadas, “ainda mais mulheres que têm filhos. Isso é mais complexo ainda, porque o sistema é voraz”, pontua.
Das galerias às ruas, o lugar que a arte ocupa na vida de Mag é central, e conta que as duas experiências, pintar os espaços e pintar as telas, se distinguem e se complementam. “A tela é outro tempo, outra dimensão, outros portes”, já o ateliê lhe permite explorar ferramentas para além da pintura, “tem coisas que a pintura não basta. Tem coisas que eu vou levar para o ateliê e vai sair como escultura de cerâmica”, e conclui que esse espaço fechado é uma espécie de alquimia. A partir de suas experimentações, seleciona o que levará às ruas; ao público, “a rua traz essa grandeza de conexão com as pessoas, de troca, de quebrar barreiras fisicamente; de estar em lugares que eu nunca estaria se não fosse porque eu fui pintar um muro”.
“Estou viva e tudo me atravessa
e tudo eu levo para a arte.
Todas as coisas boas e ruins. […] Sem a arte, se eu estivesse viva, eu estaria bem doente.”
Mag revela que gostaria de criar ou participar de um ou mais projetos que unam arte, cultura e educação, “me conectar com os jovens, principalmente, que estão sem propósito”, cuja causa vem, muitas vezes, através do paradoxo das redes sociais que, ao mesmo tempo conecta e fragmenta grupos e pessoas. Além deste plano, que pretende amadurecer e elaborar futuramente, a artista também tem o sonho de permanecer na arte, “acho que permanecer é um sonho”.
Uma dica que Mag dá às mulheres que desejam traçar uma carreira no mundo das artes é que elas possam escutar os próprios sussurros, “escute o que te atravessa. Não interessa se você vai ganhar estrelinhas de ouro de alguém ou não; o que é teu, a sua história”. Apesar de muitas vezes não se ter clareza sobre o caminho a ser seguido, Mag diz que todas têm histórias que passaram e que podem ser expressadas de diversos jeitos. Seja por meio da escrita, da música, da pintura, da performance, a arte é uma possibilidade de autoconhecimento, “olhar para dentro, e conectar ali com as nossas questões, as nossas alegrias, o que te faz bem, o que te faz mal ou o que te angustia. Eu fiz isso comigo e deu muito certo. Não é uma fórmula, mas pode ser uma dica”.
Se quiser conhecer mais o trabalho de Mag Magrela, clique aqui.
Créditos fotografias: @magmagrela ; @hey.yury e @fotothiago