Em entrevista, Soberana Ziza incentiva artistas a seguirem o caminho da investigação e a se comprometerem com as suas pesquisas a fim de desenvolverem produções autênticas
Dionisio.AG em A Voz do Artista
por Patrícia Mamede
O problema sem nome
Nova Iorque, EUA, década de 1950.
Em um dos subúrbios de Nova Iorque nos Estados Unidos, uma mulher ouviu uma mãe dizer contidamente, “o problema”. Sem que mais nada precisasse ser dito, todas as mulheres que estavam ao seu redor compreenderam e, silenciosamente, realizaram que todas sofriam do mesmo problema, do “problema sem nome”. “Começaram, hesitantes, a falar a respeito. Mais tarde, depois de pegar os filhos na creche e os levar para casa para tirar uma soneca, duas delas choraram, de puro alívio, simplesmente por saberem que não estavam sós”.
Betty Friedan foi uma jornalista e ativista que deu início à uma estrada de pensamentos revolucionários que surgiriam após suas publicações. A passagem acima é de seu livro, A Mística Feminina, publicado em 1963 nos Estados Unidos. O “problema sem nome” é um termo que utilizou para trazer à luz a insatisfação coletiva das mulheres estadunidenses em relação ao seu lugar na sociedade, na família e no lar.
Um problema de visão
Brasil, São Paulo, 2026.
Regina Elias, também conhecida como Soberana Ziza, já foi indicada à principal premiação de arte contemporânea do Brasil em 2023 (Prêmio PIPA) e foi ganhadora do Prêmio Preta Potência. Uma mulher de inteligência generosa que, ao falar, alonga as frases como quem tenta preservar os mistérios das palavras.
Nascida no Jardim Peri Alto, localizado na Zona Norte de São Paulo, Ziza dá início à sua trajetória artística quando percebe que sofre de um problema de visão. Ao olhar através da janela de sua casa – uma atividade que lhe causava muito prazer –, quando ainda era pequena, observava a natureza secreta da Serra da Cantareira que se esticava no horizonte. Deslizava o olhar pela mata até onde conseguia enxergar e, ao passo que sua retina lhe impunha um limite, Ziza se inquietava, pois queria expandir, conhecer, desvendar.
Além dos limites de seu corpo, havia também a barreira financeira que estabelecia o perímetro até onde Ziza poderia realizar suas investigações, “eu era muito presa. Desbravar era o caminho”. E foi-se.
Um problema financeiro
Na época, Elias, já tendo estabelecido sua afinidade pelo desenho, muitas vezes sua forma de ver era com as mãos e por isso foi atrás de uma oficina onde pudesse aperfeiçoar seus traços. Sentia-se apertada nos ambientes artísticos, espaços onde sentia que a sua origem periférica não era bem-vinda. Entrou em processos culturais e ambientes institucionais com o corpo apertado, mas foi.
Aos 16 anos, participou de um curso de graffiti ministrado pela artista Tikka Meszaros – ponto de virada na sua trajetória. Depois, conheceu outras artistas, como Kátia Suzue e Nina Pandolfo, influências que marcaram o início da sua relação com a cultura e o movimento hip hop e a ocupação da cidade através da arte urbana, “a rua é o lugar da democracia, do debate. O hip hop, que nasce da rua [e se compromete com ela], busca tratar dos problemas que não pertencem a uma única pessoa, mas a uma comunidade inteira”.
Com um sorriso gentil no rosto e mantendo seu tom alongado, Ziza conta da sua vivência nas ruas ao lado das mulheres que lhe serviram de rede e impulso, como quando acompanhava as Noturnas – movimento de graffiteiras em São Paulo. Encantada com o apoio mútuo que recebia nesses espaços, a artista foi atrás de iniciativas que permitissem com que mais mulheres e jovens da periferia tivessem a oportunidade de participar do universo da arte.
Fez sua transição de jovem aprendiz no Centro Cultural da Juventude (CCJ) para monitoria e, posteriormente, se tornou instrutora de graffiti. Paralelamente, buscou formação acadêmica em Moda e, depois, Licenciatura em Artes. Para Ziza, sair do território e buscar conhecimento é tão essencial quanto retornar para difundir o saber, a fim de combater o estagnamento artístico local, “a ideia não é guardar para você. É difundir”.
Em 2012, foi convidada a ir para Washington (EUA) após auxiliar a artista Chanel Campton em uma produção no Museu Afro Brasil. Foi lá, nos territórios negros de Washington, onde obteve uma experiência fundamental para o amadurecimento de sua pesquisa.
Um problema de memória
Na América do Norte a artista observou que a memória e o patrimônio cultural são geridos pela própria comunidade, em contraste com a gestão institucional ou pública comum no Brasil. A experiência a motivou a trabalhar com a memória de forma independente e autêntica.
Ao voltar para o Brasil, a inquietude lhe tomou conta e ela decidiu se aprofundar na história da cidade de São Paulo. Foi nessa época em que esbarrou com a existência do Cemitério dos Aflitos – o primeiro cemitério público da capital, criado em 1775 na região da Liberdade, um espaço destinado às pessoas excluídas na sociedade, como escravos, pessoas pobres e indígenas que eram condenados à morte. Mulheres negras vagavam bastante nessa paisagem urbana, em especial nas margens dos rios, onde as lavadeiras executavam seus serviços.
Em 2020, Ziza realizou o projeto “Estamos Vivos” no edifício dos estudantes de direito da Universidade de São Paulo (USP), uma empena que abordava a história do bairro da Liberdade e suas ossadas.
O artista enquanto um (re)contador da História
Para Ziza, todo trabalho artístico conta uma história e, por isso, os artistas devem manter um compromisso social com uma pesquisa aprofundada. Assim, ela defende que o que deve forrar a produção artística é a investigação.
“O artista tem que ser um pesquisador”
Hoje tem como foco da sua pesquisa histórias de mulheres e o enfrentamento de seus apagamentos. Nesse caminho, Ziza enfatiza sobre a responsabilidade de contar histórias coletivas e a importância de envolver as pessoas retratadas, “se eu estou recontando [uma história] quem foi que eu apaguei?”.
Guiada pela sua curiosidade, Ziza é uma mulher faminta e desbravadora e defende que a arte é apenas um meio que encontrou para tentar solucionar os mistérios que se compromete a investigar. Sendo assim, a artista não teme flutuar entre os métodos criativos, ora pinta, ora faz instalações. Transita pela arte a fim de buscar as ferramentas que melhor lhe cabem a depender da mensagem que quer passar.
Assim como Betty Friedan que, apesar de não ser artista, era uma questionadora, Ziza orienta sua carreira e suas produções pelo caminho da dúvida e do que ainda não consegue ver nitidamente. Nessa linha, lamenta a tendência atual das novas gerações que negligenciam os processos e as pesquisas profundas e, como antídoto, sugere aos novos artistas a irem em busca de “seus próprios problemas” se desejam produzir um trabalho autêntico.
“Procurem os seus problemas”
Um problema de mercado
Ziza aponta que, embora a nova geração domine as tecnologias, quando artistas não estabelecem sua identidade, acabam sendo contratados como mera mão de obra por empresas que buscam produções padronizadas e de baixo custo.
Para contornar a desvalorização do trabalho artístico, a artista incentiva as pessoas a construírem suas próprias identidades e serem fiéis a elas, enfatizando a necessidade de conquistar o respeito das empresas através de um trabalho autoral consistente, “eu trabalho muito com as marcas, mas eu sempre carrego quem eu sou junto”. Pegando o exemplo da própria trajetória, Ziza cita um mural realizado para a Visa durante a Copa Feminina, na Nossa Arena.
O projeto, focado em mulheres e executado integralmente por elas, demonstrou que é possível manter a essência artística — incluindo escolhas cromáticas como o laranja, que é característico de seu trabalho — mesmo em parcerias corporativas, mantendo a artista enquanto a orientadora da construção da narrativa da campanha ou projeto e não a marca.
Ao final, Ziza encoraja os artistas a se observarem mais, se investigarem mais de perto, estimulando-os à coragem de não fugirem de seus problemas, mas mostrando que suas questões são o caminho que deverão seguir a fim de construírem uma rota que lhes atribua sentido.
Foi indo em direção ao seu problema e lhe atribuindo um nome que Betty Friedan influenciou gerações de mulheres ao redor do mundo a refletirem e questionarem sobre suas vidas, impulsionando um movimento potente de questionamentos no Ocidente.
“Observe mais as suas produções e menos o que você tem de retorno na internet”, pontua Ziza, “quem valida o seu trabalho é você”.
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