A Voz do Artista em parceria com a Dionisio.AG
Por Patrícia Mamede
Enivo, queria que você começasse contando um pouco sobre o início da sua trajetória. Como chegamos até aqui?
Como chegamos até aqui? É uma história muito longa. Sem dúvida eu tenho muito mais da metade da minha vida dedicada às artes. Comecei lá no Grajaú com 12 anos de idade, muito jovem, em 1998, fazendo o meu nome na rua, grafitando a cidade. E fui crescendo e pintando.
Eu queria desbravar a cidade. Vi algumas coisas acontecerem no meu bairro, fiz amizades com amigos que me inspiraram e comecei a pintar com eles. Fui expandindo, sempre tive sede de conhecer outros lugares, outras ruas e sair pintando por aí. Foi assim que conheci a região do Cambuci, a Vila Madalena e o Beco do Batman. E aí fui explorando a cidade, buscando espaço, buscando ser visto.

Você se formou em artes?
Tive a oportunidade de fazer uma faculdade, sim, e me formei em 2007 em Artes Visuais. Inclusive, dei aula por anos, oficinas de graffiti para jovens. Depois, ingressei como arte-educador em colégios públicos e privados. Dei aula formal por 10 anos. Até hoje dou aula também, mas agora é mais informal, acontece mais esporadicamente, quando vou às favelas, às periferias.
Qual é o papel da arte-educação, para você?
Não tenho dúvidas de que ela salvou muitas vidas. Se a minha foi salva, sei que também transformou muita gente. Tenho a alegria de ter muitos alunos que hoje são meus amigos, meus colegas de trabalho, meus parceiros, meus assistentes. Uma família que foi sendo consolidada ao longo dos anos.

Como surgiu a ideia de criar dois espaços de centro cultural, a A7MA e o Núcleo 1?
Não surgiu ideia nenhuma, as coisas vieram. Eu nem queria isso, sendo sincero. Não que eu não quisesse construir, mas não passava pela minha cabeça criar mais um espaço, além da A7MA – ela foi, sem dúvida, uma das maiores dedicações da minha vida. Oito anos de dedicação junto com os meus parceiros, junto com Tchê Ruggi, Cristiano Kana atuantes ,e Alexandre Enokawa, Marina Zumi, Jerry Batista e Raymond que hoje já não fazem mais parte da sociedade, mas que fortaleceram muito, na época.
Por que a A7MA nasceu?
Por uma falta de oportunidade que eu percebi que acontecia, entre mim e os meus parceiros, dentro da arte urbana, para conseguir espaços expositivos. Na época, existia a Most, que durou pouco tempo, mas foi a primeira galeria de arte urbana efetiva em São Paulo. Depois, vieram outras, inclusive a Choque Cultural, que seguiu firme sendo a grande referência de pioneirismo na arte urbana, o que foi muito inspirador, mas a gente não tinha espaço lá, hoje eu vejo.

Por que isso?
Porque são muitos artistas para pouquíssimos espaços culturais expositivos.
Diante de tantos nãos recebidos – de quando eu saía com a minha pastinha, meu portfólio para buscar algum lugar – eu encontrei os meus comuns, que também recebiam esses nãos. Vamos dizer sim e fazer do nosso jeito, decidimos por fim. E a gente fez acontecer.
O espaço aqui é enorme.
Ano passado, em Paris, enquanto eu estava em uma exposição, o seu Domingos, um antigo proprietário da minha casa com quem mantive uma relação de amizade por um longo tempo, me mandou um vídeo daqui de dentro do prédio. Eu não entendi muito bem, ou me fiz de desentendido, e disse a ele que estava viajando. Então, quando você voltar, a gente conversa, ele me disse.
Voltei, dei mais um tempo, fiz mais uns trabalhos e fui encontrá-lo por educação: Vamos lá, seu Domingos, vamos lá ver o que você quer me mostrar. E, então, o cara abriu isso aqui para mim.

O prédio tem oito andares com salas largas, pé-direito alto e uma garagem imensa.
Quando eu vi esses vãos livres, enormes, fiquei apaixonado pelo prédio, mesmo não querendo mais me envolver em outros projetos culturais. E aí batemos um papo e, quando eu perguntei quais eram as condições, ele me apresentou uma proposta irrecusável. Me ofereceu um aluguel irrisório pela magnitude do espaço.
Por que você acha que ele foi tão generoso? Ele queria que você cuidasse do lugar?
Ele recebeu várias propostas para transformar aqui, para virar academia, clínica, colégio, hotel, enfim. Mas ele pensava em mim. Falou que toda vez que ele abria a porta, pensava em mim; pensava em arte. Vislumbrava o lugar repleto de arte. Fiquei muito empolgado. Era pegar ou largar.
E você pegou.
Peguei, sem saber muito o que fazer diante de todo aquele tamanho. Precisei de um mês só para imaginar. Na hora, o que me veio à cabeça foi um centro integrado de artes, lógico. Minha esposa é do corpo, do circo, da dança, e pensei que poderia ser legal fazer uma coisa que abrangesse outras linguagens.
Lembro de pensar que não iria conseguir. Trouxe arquitetos, engenheiros e pessoas para me ajudar porque, embora a estrutura estivesse maravilhosa, o prédio era uma fábrica de gravatas desativada havia 6 anos. Então estava muito sujo, precisava de pintura, instalação elétrica, um monte de coisas.
Uma fábrica de gravatas?
É, uma fábrica que produzia gravatas, fundada em 1987. Funcionou até a pandemia, em 2020.
De gravatas a pincéis. Achei bastante simbólico.
Quanta ironia, não?
Sim. Alexandre Puga pintou esse prédio praticamente inteiro na airless. O Zé Luís, que está fazendo uma exposição na A7MA agora e tem uns conhecimentos em elétrica, foi quem instalou todas as nossas luzes. E foi assim, dois meses lavando, um mês pintando e fazendo os reparos e, no dia 28 de março, no meu aniversário, finalmente fundamos o NUCLE1, com uma exposição maravilhosa que reuniu mais de três mil pessoas na abertura, com um grande sucesso de mídia através da nossa assessora Lu Stabile.
Saímos quatro vezes na Globo, no Metrópoles, na TV Cultura, vieram correspondentes de Los Angeles até aqui para fazer cobertura. Pô, veio uma galera que acreditou. É algo que eu quis fazer para a comunidade artística, do bairro. E foi pro mundo, né?
E agora?
Agora eu divido, mais uma vez, o meu, o meu, o meu tempo de produção, de criação, de viagens com esses dois projetos audaciosos e altamente respeitados dentro do campo da arte contemporânea. Não só da arte urbana, mas da arte contemporânea, porque o que a gente faz através das faltas de oportunidade é milagre. Para pobre, para rico, para quem é da comunidade, para estrangeiro, para galera da periferia, é para todo mundo.
Você teria mais espaços, se fosse possível administrar?
Eu acho que aqui está pequeno.
Hum.
Se conseguir um prédio de trinta andares, para nós ainda será pequeno. O nosso movimento é muito forte, muito pulsante. Temos muita energia de construção.
O que mais te impede?
A administração e a manutenção são muito árduas. É difícil manter o local. Mesmo que o seu Domingos seja uma pessoa muito generosa e tenha oferecido esse presente para nós, é uma responsabilidade imensa cuidar de um prédio. Então os custos básicos extrapolam muitas vezes a minha condição financeira. É um milagre mesmo: todo mês, mesmo com toda a dificuldade que temos, a gente consegue pagar o aluguel. Foi assim na A7MA também, durante muitos anos.
Nós nunca ganhamos dinheiro com a A7MA. Sempre visamos o público, o artista, o futuro da arte. Cada lugar que fecha é muito triste. Se lugares com todo o aporte financeiro fecham, e nós estamos vivos há quinze anos na A7MA, é realmente um milagre, não é? É um milagre, no Brasil, conseguirmos fazer o que a gente já fez, o que a gente já faz, o que a gente vai fazer.
De onde você acha que vem esse milagre?
O milagre vem do campo divino da arte. A arte traz uma energia, uma egrégora que transforma qualquer espaço quando é verdadeira. Quando a coisa vem do coração e da alma. E as pessoas que têm dinheiro ajudam, apoiam, vêm comprar, vêm ajudar. Não que a gente peça ajuda para ninguém, mas tá no ar, tá na órbita e as pessoas sacam isso aí e vêm aqui fazer essa troca justa.
Tem duas perguntas que eu, particularmente, gosto muito, que a jornalista e escritora Clarice Lispector fazia aos seus entrevistados. A primeira é: qual é a coisa mais importante do mundo; a segunda: qual é a coisa mais importante para o indivíduo?
A coisa mais importante do mundo é o carinho, o cuidado, a atenção. Entender que o mundo é um ser vivo que agrega todos os seres. A coisa mais importante para o indivíduo é a própria vida.
Ontem eu estive num velório de um amigo muito querido. Isso faz a gente refletir sobre a matéria e sobre o espírito. Esse meu amigo me convida, feliz, para cozinhar comida libanesa, esfihas, sempre preocupado com o que iria preparar para nós. Ele era dono da residência artística em que eu sou parceiro, a Kaaysa Art Residence. De repente, eu vejo ele em um caixão. Um corpo sem vida. Já não era mais o meu amigo ali; era a casca dele. Ele estava ali, com a gente, orbitando na atmosfera astral. Expandiu.
O corpo, às vezes, é pequeno em relação à alma.
É isso, Enivo.
É isso.

Marcus Vinícius (Enivo)
Marcus Vinícius, conhecido como Enivo, nasceu em 1986, no Grajaú, em São Paulo, e iniciou sua trajetória no graffiti aos 15 anos. Com mais de 25 anos de carreira e mais de 20 mil intervenções realizadas no Brasil e no mundo, o artista desenvolve uma produção que transita pelo afrofuturismo, pelas raízes afro-brasileiras e pelas contribuições dos povos indígenas à cultura brasileira, incorporando também símbolos da sociedade digital e globalizada. Formado em Artes Plásticas, Enivo atua ainda como educador e ativista cultural, ministrando oficinas e workshops de graffiti, arte urbana e carreira artística desde 2004. Fundador e curador da Galeria A7MA e NUCLE1, trabalha pela profissionalização e inclusão de jovens negros e periféricos no mercado da arte, tendo realizado mais de 70 curadorias e participado de cerca de 40 exposições no Brasil e no exterior.

