Riachuelo e Nordestesse concluem Mãos da Moda com desfile memorável em Araruna

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A primeira edição do Mãos da Moda, projeto de cocriação entre marcas de moda autoral e artesãos do Nordeste, conclui seu ciclo com desfile em Araruna, Paraíba. No evento realizado em 17 de julho, as marcas paraibanas Carnavália e Morada apresentaram coleções inéditas desenvolvidas ao longo de sete meses em colaboração com grupos de artesãos locais, consolidando visão de que a melhor forma de criar moda autoral competitiva no Brasil é através de parcerias autênticas com tradição manual nordestina.

Uma iniciativa de cocriação e fortalecimento

O projeto Mãos da Moda nasceu de percepção simples mas profunda: marcas de moda autoral não conhecem ou não sabem como acessar grupos artesanais que poderiam agregar significativamente à sua identidade e diferenciação. Desenvolvido em parceria entre Nordestesse (plataforma de moda do Nordeste) e Riachuelo Lab (plataforma de curadoria de talentos em moda, arte e cultura da Riachuelo), com apoio da Secretaria de Cultura da Paraíba através do ICMS Cultural, o projeto busca estreitar laços entre criadores e artesãos.

Ao longo de sete meses, oito marcas autorais — seis da Bahia e duas da Paraíba — selecionadas por chamada pública desenvolveram coleções inéditas em cocriação com mais de 60 artesãs. O resultado foi lançado nacionalmente durante o Dragão Fashion Brasil, maior semana de moda do Norte e Nordeste, realizada em Fortaleza.

Daniela Falcão, fundadora da Nordestesse, explica a lógica:

“Nos 5 anos de atuação da Nordestesse, percebemos que as marcas de moda em geral não conhecem ou não sabem como acessar grupos artesanais que poderiam agregar muito à sua imagem e identidade. O Mãos da Moda surge para estreitar esses laços, garantindo recursos humanos e financeiros para que essa parceria resulte numa coleção coesa e que fortaleça tanto as marcas quanto os grupos artesanais.”

Cathyelle Schroeder, CMO da Riachuelo, reforça compromisso institucional:

“Investir na criatividade brasileira é investir em inovação, relevância cultural e na conexão autêntica com o público. O Riachuelo Lab nasce como materialização dessa visão: uma plataforma de experimentação e curadoria em moda, arte e cultura que, com o Mãos da Moda, reafirma nosso compromisso de acreditar e investir nos talentos brasileiros e histórias verdadeiras, fortalecendo todo o ecossistema criativo do país.”

Araruna: território de macramê e ecoturismo

Araruna, localizada a 165 km de João Pessoa no Curimatú paraibano, é conhecida pelo Parque Estadual Pedra da Boca e por suas excelentes opções de ecoturismo. Mas é também pelos talentos de suas macramistas que a cidade se destaca. Aramê, associação que reúne cerca de 30 artesãs especializadas em macramê, é uma das grandes parceiras do Mãos da Moda.

O desfile aconteceu no Spazio da Pedra, pousada de charme cujo maior atrativo é vista deslumbrante da Pedra da Boca — cenário perfeito para apresentação de coleções que homenageiam saberes ancestrais.

Carnavália + Aramê: Macramê reimaginado

A coleção “Trama Delírio”, resultado da colaboração entre Carnavália e Aramê, transforma macramê tradicional em experimentação têxtil contemporânea. A proposta explora novas possibilidades para técnica tradicionalmente mais associada ao artesanato que à moda.

Inspirada na obra do artista pernambucano Tunga (1952-2016), a coleção nasce de processo de troca criativa entre diferentes saberes. Macramê aparece reinterpretado através de novos materiais, escalas e aplicações pouco convencionais — em alguns casos, um único look exigiu até 65 horas de trabalho manual.

Duda Carvalho, diretora criativa da Carnavália, descreve a investigação:

“As tranças, cordas, redes e nós do trabalho de Tunga serviram de guia para uma investigação sobre entrelaçamento, transformação e construção coletiva — temas que encontraram ressonância natural na prática do macramê desenvolvida pelas artesãs da Aramê.”

Experimentações com tule, bordado, estamparia e fotografia complementam o macramê, criando linguagem visual única. Os calçados, desenvolvidos em parceria com marca paraibana Erregê, também receberam intervenções das artesãs da Aramê, amplificando presença de manualidade além do vestuário.

Morada + Quilombo Pedra D’Água: Labirinto urbano e resistência

A coleção “Gira”, assinada por Lu Azevedo da Morada em parceria com labirinteiras do Quilombo Pedra D’Água em Ingá, explora novos caminhos para bordado labirinto — mais urbano e ousado, sem abrir mão de identidade deste bordado em território paraibano.

O quilombo, localizado na zona rural de Ingá no agreste paraibano, reúne cerca de 20 mulheres que preservam bordado labirinto em território quilombola. Em “Gira”, as artesãs quilombolas executam desde detalhes pontuais até peças inteiramente bordadas, valorizando e iluminando saber transmitido entre gerações.

Lu Azevedo reflete sobre proposta:

“A minha ideia foi usar a moda para mostrar as possibilidades do labirinto. As pessoas esperam do artesanato uma leitura suave e delicada. Como já trabalho com o labirinto sabia que havia essa possibilidade, e queria mostrar que o bordado não precisa ser sempre suave porque os processos da vida da gente não são só suaves e delicados. E para transmitir usos sempre tive ideia de trazer o jeans, porque ele está associado ao urbano ao brutalista mesmo.”

A coleção tem como base jeans, rami e linho. Bordado labirinto aparece em detalhes nas mangas, calças e blazers, ou é protagonista em vestidos completamente bordados. Crochê e miçangas complementam a proposta, demonstrando capacidade técnica da Morada em diversificar artesanias.

A modelagem, majoritariamente em moulage, é assinada por Amanda Mota com toque de alfaiataria que é DNA da marca. Acessórios em cerâmica nas cores bordô e azul são assinados pela pernambucana Janaína Dutra.

Quatro dos looks homenageiam entidades femininas do candomblé e da umbanda — Maria Navalha, Rosa Caveira, Maria Padilha e Oxum — figuras que representam resistência e força das mulheres, apresentadas de forma desconstruída.

Uma visão de futuro: projeto perene para o Brasil

Embora primeira edição tenha contemplado Bahia e Paraíba, objetivo é que Mãos da Moda se torne projeto perene, envolvendo gradualmente outros estados brasileiros. A iniciativa materializa compreensão de que moda autoral competitiva no Brasil nasce não de isolamento criativo, mas de diálogo genuíno entre visão contemporânea e saberes ancestrais.

Conforme publicado pela Academia Brasileira de Marketing, Riachuelo e Nordestesse concluem 1ª edição Mãos da Moda com desfile em Araruna unindo marcas autorais e artesãos do Nordeste em projeto de cocriação para moda autoral competitiva.

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