A vida como um exercício de montagem

Artista comenta sobre sua migração do Piauí para São Paulo e fala sobre como a pressa mercadológica e a inteligência artificial podem empobrecer a criação humana.

 

Dionisio.AG em A Voz do Artista

por Patrícia Mamede

O menino que desenhava com as sobras do pai

Em 2010, um jovem de 21 anos desembarcou na capital paulista trazendo na bagagem pouco mais do que pastas de rascunho e o desejo ambicioso de viver de papel, caneta e imaginação. Afastando-se de uma carreira que parecia predestinada à segurança da licenciatura, Anderson Alves foi à metrópole em busca de oportunidades que seu Piauí natal, na época, não podia garantir.

Contudo, o interesse pelas artes começou muito antes da migração. Desenvolveu-se em casa, estimulado por seu pai, um homem humilde que trabalhava com a impressão de painéis publicitários e trazia consigo, após seus longos turnos na fábrica, tesouros em formato de papeis e outros materiais que sobravam da gráfica. Ao chegar em casa, os olhos do filho brilhavam diante de todo aquele “lixo”, que ele transformava em matéria-prima e material de sonho.

Ao chegar a São Paulo, orgulhoso com seus pedacinhos de papel na mochila, o artista entendeu rapidamente que, para ser reconhecido, precisaria dar a cara a tapa e enfrentar as probabilidades de rejeição, onde se esconderiam algumas oportunidades. Sua abordagem direta fechou e abriu suas primeiras portas no mercado. Foi assim que conquistou uma colaboração de seis meses na Editora Abril, ilustrando para publicações de peso como Superinteressante, Mundo Estranho, Capricho e Saúde.

Na própria capital, formou-se em Comunicação Visual e passou a frequentar as oficinas e cursos gratuitos do Serviço Social do Comércio (Sesc).

 

Elefante Branco – Cidade das Artes

O asfalto, a galeria e o desapego

Por volta de 2020, o artista decidiu levar seus traços às ruas, iniciando sua trajetória como muralista. Para Andy, assim como para muitos muralistas e grafiteiros, a rua oferece um o calor e a troca que o ateliê é incapaz de reproduzir. Segundo ele, existe no concreto um diálogo vivo que pode ser crítico e desafiador, mas também bastante acolhedor e estimulante.

Foi em uma tarde, no cruzamento de ruas que tanto gosta, que Anderson teve seu portfólio físico, com anos de produção, roubado. “Aí só tem papel, você não vai usar!”, gritou ele inutilmente enquanto observava o homem desaparecer com o seu tesouro na mão. “Fiquei muito triste.” 

O infortúnio, porém, cindiu sua vida em um antes e um depois. Daqueles dias em diante, sem os documentos que serviam de testemunha da sua primeira história e compreendendo na pele a noção de efemeridade, o artista decidiu redesenhar sua pesquisa.

A exemplo da escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso – que, após perder um manuscrito ao qual havia dedicado longos meses de trabalho, reestruturou completamente sua metodologia —, Anderson também soube fazer da perda um novo ponto de partida. Ambos, em seus diferentes ofícios, parecem ter desenvolvido uma nova relação com suas obras a partir da falta.

Dulce Maria passou a apagar todos os seus primeiros rascunhos e escrever a partir do zero. Este se tornou seu novo método de escrita. “Sempre confiei no que se perde”, elaborou a escritora em entrevista ao jornalista Ricardo Viel. 

O ilustrador, por sua vez, decidiu que era tempo de mergulhar no desapego e inventar o recomeço. Essa capacidade de transformação reflete-se diretamente na estética atual de Anderson. Hoje, suas obras são uma fusão de suas vivências geográficas e temporais. As cores quentes e os elementos da natureza piauiense encontram a cultura pop, a psicodelia paulistana e o folclore nacional.

 

Bumba

Ele observa com alívio que o cenário do Piauí já não é o mesmo de quando deixou o estado, em 2010. A internet e as novas redes de comunicação descentralizaram a arte, permitindo que criadores locais mostrem suas obras ao mundo sem a necessidade da migração. 

 

O divertido quebra-cabeça com as marcas 

Trabalhar com marcas gigantes como Nescafé, Itaú e Vibra é, para Andy, um exercício constante de interpretação. O artista não enxerga a publicidade como uma limitação de sua liberdade, mas como um jogo de lógica em que sua identidade precisa dialogar com as necessidades institucionais de cada cliente.

Para ele, o processo funciona como a montagem de um quebra-cabeça. O desafio é equilibrar seus signos e sua identidade com as cores e narrativas que a marca precisa comunicar, “acho um desafio gostoso”.

 

Nescafé 20 anos

Para manter essa engrenagem criativa sempre lubrificada e não depender apenas das entregas aos clientes, Anderson mantém um hábito analógico. Carrega sempre consigo um caderno estilo Moleskine, no qual faz desenhos aleatórios, livres de prazos ou expectativas. É nesse laboratório íntimo e sem compromisso onde ele constrói o repertório de referências a ser utilizado quando o mercado bater à sua porta com um problema para resolver.

 

Para Vibra São Paulo

E, para que essa parceria entre arte e marcas funcione da melhor forma, o artista deixa um conselho prático ao mercado corporativo, “objetividade”. Ele defende que as marcas facilitam muito o processo criativo quando apresentam briefings com ideias claras. Quanto mais direta a proposta, mais fácil desenvolver soluções visuais que dialoguem bem com o projeto.

O erro humano contra a padronização artificial

Ao perguntar sobre a ascensão da inteligência artificial no mercado criativo, Andy Alves demonstra uma visão crítica e consciente. Ele não vê a tecnologia como uma substituta da sensibilidade humana, no entanto, prevê uma divisão clara nas dinâmicas de contratação — algo que já vem acontecendo há um tempo. De um lado, há marcas que buscam originalidade e valorizam a criação humana; do outro, demandas genéricas e de baixo orçamento, que fatalmente recorrerão aos algoritmos como resposta rápida e prática.

O artista concorda que a dependência dessas ferramentas cobrará um preço alto da própria cultura, culminando na pasteurização homogênea das pessoas, de suas opiniões, trabalhos, criações e até de seus corpos — cada vez mais consumidos pela indústria da “beleza”.

A criação artística, afinal, exige espaço para as imperfeições da vida. No fim, os esquecimentos e as perdas são também fundamentais para o processo criativo. Feito uma delicada ciência, o produto final só ganha valor após ter nascido no terreno desconhecido de um caderno de bolso.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Anderson Alves, clique aqui.

LinkedIn
WhatsApp
X
Threads

Leia mais conteúdos em https://abramark.com.br

Pesquisa

Pesquise abaixo conteúdos e matérias da Academia Brasileira de Marketing

Acelerado por ecommerce.CAMP/portais Portais de alta performance com IA que aprendem a cada visita,
indexados e otimizados para SEO, GEO e LLMs, em piloto automático.