A Voz do Artista de Dionisio.AG
Por Patrícia Mamede
Saí da Vila Congonhas, em São Paulo, e fui dirigindo rumo ao Grajaú. A metrópole sempre me choca. Vinte quilômetros de distância, e os dois destinos cabem no nome de uma única Zona. Do quilômetro um ao quilômetro doze, a paisagem já sofre mudanças nítidas, as zonas azuis desaparecem gradativamente, o número de pedestres aumenta, a quantidade de BYDs diminui, os pequenos comércios se multiplicam e a fé é obrigada a se apequenar, saindo das grandes igrejas para se aconchegar em pequenas capelinhas.
Eu, uma paulista de classe média que morou a vida toda em São Paulo, nesta mesma Zona, nunca havia feito o trajeto. Apesar das diferenças, há, porém, uma continuidade estampada nos postes e nos muros da cidade, estabelecendo uma ligação entre o motorista do BYD e o senhorzinho ajoelhado na capelinha. Uma ligação que você provavelmente conhece bem: uma pequena casinha marrom e amarela.
Bastante famosa na cidade, a casinha é a marca registrada do artista a quem fui entrevistar, o muralista e ativista Mauro Neri, a quem você talvez também conheça por “Veracidade”.
Cheguei à sua casa — nada amarela e pouco singela — quando uma van se aproximou. Um homem simpático, levemente desengonçado, com dreads compridos e grisalhos, desceu do veículo e me cumprimentou. “Chegamos juntos”, eu disse e nós rimos numa tentativa de espantar o constrangimento desses primeiros encontros. Mauro apontou para a entrada e insistiu para que eu me sentisse à vontade.
Logo de cara, fui recebida por casinhas e mais casinhas amarelas de todos os tipos: grandes, pequenas, de tecido, de madeira, semiprontas, no formato de mochilas. “Eu nasci aqui [no Grajaú]”, explicou ele, “ hoje moro um pouco aqui e um pouco na casa da minha namorada, na Vila Madalena. O amor sempre me guiou”.
Atravessamos a garagem, apreciamos um pouco o quintal e depois passamos para a primeira sala, que abrigava uns seis trabalhos de Mauro. A casa é enorme, com três andares e, à medida que caminhamos, sinto-me dentro de um labirinto, onde cômodos pouco prováveis – como a cozinha e um ateliê de costura – se conectam de maneira orgânica. Em cada ambiente há, pelo menos, duas ou três obras do artista, a maioria delas contendo mapas de diferentes cidades, como Berlim, Bolonha e, claro, São Paulo.
No ateliê de costura, um jovem arquiteta a produção de mochilas em formato de casinhas amarelas. Caio é seu nome, um músico que divide a vida entre o afago pernambucano e o corre paulistano, “Passo seis meses em Pernambuco e seis meses em São Paulo”. Ele conta que toda vez que volta para o Sudeste, traz consigo a cultura folclórica, bastante presente em suas composições.
Mauro explica que o ateliê era de sua mãe, “Agora Caio está dando continuidade a esse ofício”. Me despeço de Caio e seguimos com o tour.
Ao chegarmos ao último andar, Mauro perguntou se eu tinha medo de altura. Escolhi mentir, pensando que a mentira seria minha amiga naquele momento. Ele então me guiou até uma laje onde havia uma escadinha que dava para o telhado e lá ficamos por um tempo, em silêncio. Quem valoriza a palavra sabe que o silêncio é o maior sinal de respeito que se pode ter diante das grandezas da vida, qualquer verbo errado ali diminuiria a beleza e a miséria de ver a cidade quase que inteira.
“Eu trabalhei naquela ONG azul”, disse ele depois de um tempo, apontando para um galpão onde vi uma arte sua com a escrita Ver gente viva. Ele explicou que sempre procurou, por meio do que sabia fazer, deixar uma contribuição para a sociedade. “Minha filosofia vem um pouco disso. Escrever e desenhar nas ruas o que eu acho que as pessoas precisam ver. […] Eu acredito na arte como [uma ferramenta de] informação.”
“As pessoas podem aprender muito lendo os muros da cidade. A verdade está nas ruas.”
À medida que conversamos, ele conta algumas contradições interessantes. Como a vez em que sofreu um processo judicial por fazer uma interferência artística na cidade e, como penalidade, que o artista converteu realizando a pintura da fachada de uma ONG. Ou a vez em que foi socorrido pela polícia após sofrer uma violência urbana — a mesma polícia que já o agrediu e o violentou por grafitar a cidade com suas casinhas amarelas, suas mensagens que brincam com verbos e suas personagens esguias e simpáticas.
Fico pensando o que pode existir de tão ameaçador em alguém querer marcar a própria existência na cidade? Entre si, os pixadores respeitam as assinaturas e as tags uns dos outros como uma máxima de compromisso e deferência. “Atropelar” um nome significa passar por cima de alguém; riscar um nome significa apagar uma vida. O graffiti é um movimento guardião da palavra, que reconhece o seu poder e honra a sua generosidade. Uma crença tão verdadeira que chega a parecer simbólica, como diria Clarice Lispector.
“No graffiti, na pixação, as pessoas dão o que têm. E as pessoas, no geral, só têm o próprio nome.”
Mauro carrega o desejo de estimular os jovens a acessar a cultura e a educação, usando a rua como lousa para que, assim, eles transformem as ruas em dicionários vivos e apresentem novas palavras aos seus irmãos, às suas amigas e às suas famílias, na tentativa de expandir seus vocabulários e seus mundos – um pensamento que vai de encontro com o que defendia o filósofo Ludwig Wittgenstein, quando disse: “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”.
Apesar de ter sido advertido e punido várias vezes por suas intervenções urbanas, parar, para Mauro, nunca foi uma opção. “Faço pelo compromisso”.
Mauro Neri, nascido em 1981 na periferia de São Paulo, é um artista visual, educador, artista e ativista que iniciou sua trajetória nas ruas em 1995 e se consolidou no graffiti, muralismo e pichação com forte viés social e urbano. Licenciado em Artes Visuais com estudos na Academia de Belas Artes de Bolonha, idealizou projetos como infograffiti, Imargem e Cartograffiti, articulando arte, meio ambiente e o direito à cidade. Notabilizou-se também pela liderança contra o apagamento de murais em São Paulo em 2017 – movimento que impulsionou a criação de políticas públicas voltadas à arte urbana — e por sua reconhecida produção periférica que amplia os acessos culturais e democráticos no espaço público.
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